PARTE 1
Na tarde em que Dom Aurélio Castañeda comprou a liberdade de uma jovem grávida, metade da cidade achou que o velho tinha perdido a cabeça.
Era no mercado de gado de Lagos de Moreno, Jalisco, em meio ao cheiro de birria, terra úmida, esterco e tortillas recém-feitas.
A jovem estava sentada em uma cadeira de plástico azul, com as mãos marcadas por cordas e o rosto tão pálido que parecia que o sol o estava apagando.
Ela estava grávida de quase oito meses.
À sua frente, um agiota chamado Evaristo agitava alguns papéis amassados.
"A dívida da sua mãe não vai se pagar sozinha", gritou ele. "E se ninguém responder, a moça vem trabalhar comigo até que cada centavo seja pago."
Alguns riram.
Outros fingiram pena.
Mas ninguém fez nada.
"Quem topa?", insistiu Evaristo. "Ela é jovem, mas vem com um pacote completo." A moça baixou o olhar.
Então Dom Aurélio ergueu a mão.
Um silêncio sepulcral se fez sentir.
Dom Aurélio tinha 68 anos, usava botas pretas e um chapéu branco, e possuía aquela presença imponente e antiquada que dispensava gritar para que todos se afastassem. Relógioe calendários
Ele era dono do rancho El Mezquite, famoso por seus campos de agave, seus belos cavalos e uma família que ostentava o sobrenome como se fosse um título de realeza.
"Quanto você me deve?", perguntou ele.
Evaristo sorriu, pensando que o estava provocando.
Mas Dom Aurélio tirou um maço de notas do bolso.
"Tudo. E sem tocá-la novamente."
Ele pagou a dívida, cortou a corda com sua faca e inclinou-se levemente em direção à jovem.
"Qual é o seu nome, filha?"
Ela hesitou antes de responder.
"Clara Méndez."
"Vamos lá, Clara." Aqui, ninguém mais vai te olhar como mercadoria.
Clara se levantou lentamente, com a mão na barriga.
Ela não chorou.
Não agradeceu.
Apenas caminhou atrás dele, sua dignidade ferida, mas ainda viva.
Quando chegaram à fazenda, a família já os esperava na varanda.
O filho mais velho de Dom Aurélio, Rodrigo, congelou ao vê-la. Ciênciasbiológicas
Sua esposa, Fernanda, segurava um copo de água fresca como se quisesse quebrá-lo.
E Dona Elena, a mãe de Dom Aurélio, de 82 anos, observava de sua cadeira de balanço, com os olhos semicerrados.
"Pai, me diga que você não trouxe aquela mulher aqui", disse Rodrigo.
"Eu trouxe uma pessoa humilhada. Não 'aquela mulher'."
Fernanda soltou uma risadinha venenosa.
"Que bom. Agora o rancho El Mezquite se tornou um refúgio para mulheres grávidas que vêm do mercado."
Clara baixou o rosto.
Rodrigo também.
Aquele pequeno gesto covarde foi suficiente para fazer Dona Elena parar de se balançar.
"Moça", disse a velha, "olhe para mim."
Clara ergueu os olhos com medo.
O vento agitou seus cabelos, revelando uma pequena marca avermelhada atrás da orelha esquerda.
Uma lua crescente perfeita.
Dona Elena empalideceu.
Dom Aurélio sentiu o sangue gelar.
Aquela marca estava na família Castañeda há gerações.
Seu avô a tinha.
Seu pai a tinha.
Rodrigo a tinha.
E agora estava na pele de uma jovem que, segundo todos, não era ninguém.
Naquela noite, enquanto Fernanda fingia ordenar às criadas que preparassem um quarto "longe da casa principal", Lupita, a cozinheira de longa data, foi procurar Dom Aurélio em seu escritório.
Ela entrou, com as mãos trêmulas.
"Pai, aquela moça já esteve aqui antes."
Dom Aurélio fechou a porta.
"Fale."
Lupita engoliu em seco.
"Ela trabalhou na cozinha há três anos. Era quieta, responsável, nunca causou problemas. Dom Rodrigo costumava ficar perto dela quando Dona Fernanda ia para Guadalajara."
Dom Aurélio não disse nada.
"Uma noite, eu os ouvi discutindo no depósito", continuou Lupita. "Clara disse a ele que estava grávida. Ele prometeu que ela reconheceria o bebê. Uma semana depois, Dona Fernanda a demitiu da fazenda com dinheiro e ameaças."
O velho colocou as mãos sobre a mesa.
Não bateu em nada.
Mas seu silêncio era mais assustador do que um grito. — Rodrigo sabia que ela tinha sido demitida?
Lupita baixou o olhar.
— Sim, chefe. E não fez nada.
Dom Aurélio foi para o quarto dos fundos.
Clara estava sentada na cama, com os pés inchados, segurando uma pequena sacola de pano.
— Preciso da verdade — disse ele.
Ela olhou para ele como alguém que não tinha mais forças para se defender.
— A verdade não me serviu de nada.
Mesmo assim, ela abriu a sacola.
Tirou uma carta dobrada, manchada de umidade, e um laudo médico particular.
A carta estava escrita à mão por Rodrigo.
Dizia que a criança era dele.
Que ele a reconheceria.
Que só precisava de tempo.
O laudo indicava 99,8% de compatibilidade de paternidade.
Dom Aurélio guardou os papéis com cuidado.
— Por que você não veio antes?
Clara deu uma risada triste. "Vim duas vezes. Na primeira, não me deixaram entrar." Na segunda, a senhora Fernanda disse que, se eu insistisse, mandaria alguém atrás de mim. Depois, minha mãe morreu e a dívida ficou sobre mim.
Dom Aurélio fechou os olhos.
Quando saiu para o corredor, Rodrigo estava lá.
Fernanda estava atrás dele.
Muito arrumado para aquela hora.
Calma demais.
"Amanhã", disse Dom Aurélio, "você vai contar a todos o que fez."
Rodrigo abriu a boca.
Nada saiu.
Fernanda aproximou-se do ouvido dele e sussurrou algo.
Ele empalideceu.
Antes do amanhecer, um médico desconhecido entrou pela porta dos fundos da fazenda com uma pasta preta.
E Clara, da janela, viu-o subir direto para o seu quarto.
PARTE 2
O nome do médico era Dr. Nájera.
Ele disse ser de León e apresentou um elegante cartão de visitas, do tipo que impressiona quem não sabe ler nas entrelinhas.
Mas Lupita o reconheceu imediatamente.
Não porque ele curasse os doentes.
Mas porque, nas aldeias, era sabido que ele assinava diagnósticos de acordo com o gosto do cliente.
Fernanda o recebeu na sala de estar com café preparado em um bule de barro e uma pasta pronta.
"A moça está perturbada, doutor. Ela está tendo ideias estranhas. Diz que meu marido é o pai do bebê dela, mas todos nós sabemos como essas mulheres são quando sentem o cheiro de dinheiro."
Rodrigo estava parado junto à janela, de braços cruzados, o olhar perdido nos currais.
Ele não defendeu Clara.
Ele não negou Fernanda.
Ele apenas ficou ali parado, como uma estátua covarde.
O médico pegou uma caneta.
"Podemos recomendar repouso absoluto devido à instabilidade emocional. Também, uma licença médica até depois do parto."
"Seria o melhor", disse Fernanda. "Para o bem dela, é claro."
Lupita ouviu do corredor e correu para o escritório.
"Chefe, querem interná-la como se ela fosse louca."
Dom Aurélio saiu sem pressa.
Mas cada passo que dava soava como uma sentença de morte.
Quando entrou na sala, o médico já tinha metade de um relatório escrito.
"O senhor já a examinou?", perguntou Dom Aurélio.
Nájera ajeitou os óculos.
"Há casos em que não é preciso ver muito."
"Então você não precisa pagar muito para que ela vá embora."
Fernanda se levantou.
"Dom Aurélio, não seja injusto." Estou apenas tentando proteger a honra desta casa.
O velho a encarou.
"A honra não se protege enterrando uma mulher viva."
Rodrigo cerrou os dentes.
"Pai, Clara pode estar confusa. É uma situação delicada."
Dom Aurélio tirou a carta.
"Sua assinatura não é falsificada."